sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Elena




Acabo de assistir á “Elena” documentário de Petra Costa sobre sua irmã Elena Andrade e ainda estou em transe, me faltam palavras para definir o que acabei de assistir mas enquanto eu remonto o filme na minha cabeça eu vou ao menos tentar defini-lo.


Primeiro Petra você foi de uma coragem absurda ao remontar o seu passado, foi um exercício de superação extremo que eu não sei se eu seria capaz. Só pela sua coragem Petra você já merece elogios.

Mas “Elena” é mais. Enquanto filme “Elena” é um resgate e uma descoberta. Um resgate pra você enquanto Irmã e diretora e uma descoberta pra você enquanto Irmã e para nós espectadores.

A forma como você abre o seu baú de memórias no documentário convertendo-o á material fílmico é fascinante. Mais fascinante ainda é a maneira como você mantêm o espectador inerte a essa história (por essa inércia e por esse êxtase encontro dificuldades de “remontar” o filme na minha mente nessa hora em que escrevo as minhas impressões sobre o filme.

Petra você coloca o espectador em um “salto no escuro” do seu poderoso baú de memórias sobre Elena ou será sobre você mesma. Tem momentos em que a persona de uma se misturam e eu realmente acredito que contar a história de Elena você está contando sua própria historia de vida também.

Sobre o “Salto no escuro”, sua narrativa fílmica evolui de forma imperceptível desse modo, o espectador perde a noção do tempo e do espaço fílmico e quer saber? Pouco importa pois quando nós aceitamos embarcar nessa viagem de conhecimento sobre essa figura mítica que é Elena sabíamos que seria uma viagem indescritível só que eu não imaginava que iria mergulhar numa viagem dentro de mim mesmo.

“Elena” é um filme de sonhos e sobre a trajetória da sua protagonista Elena Andrade, uma jovem determinada cheia de sonhos. É também um filme sobre duas irmãs que se conectam pela força dos laços que as une através de uma viagem.

Sabe Petra, eu também tenho o sonho de me tornar ator. Ator e Cineasta assim como você. Estudei interpretação na infância e adolescência e entrei na faculdade de Cinema para melhorar as minhas críticas e atuar nas produções da faculdade. Acabei me apaixonando pela arte cinematográfica como um todo. Mas como Elena eu estou sempre em busca de MAIS e com a mesma determinação que a da sua querida irmã eu tenho certeza que vou conseguir.

Assim como você Petra também uma viagem que me conectou novamente a minha irmã Roberta que eu amo de paixão por tudo mas principalmente pela garra dela assim como eu tenho certeza que você amava sua querida irmã Elena também pela determinação dela.


Desculpe ficar falando de mim na crítica do seu filme Petra, mas acontece que “Elena” me proporcionou uma experiência como um espelho pra dentro de mim mesmo. É isso, essa é a definição para o seu filme: “Elena” é um espelho pra dentro da sua história e pra dentro de nós mesmos.


Eu só tenho a agradecer Petra pelo seu filme belíssimo, pela transformação que ele me provocou , pela sua generosidade em partilhar sua história conosco. Seu filme foi á faísca de coragem que me faltava para também contar a minha história.



domingo, 22 de dezembro de 2013

Cine Holiúdy



O Longa-Metragem “Cine Holiúdy” é acima de tudo uma homenagem ao Cinema e os seus mais diversos gêneros. O filme de Halder Gomes retrata a luta do exibidor Francisgleydisson(Edmilson Filho) para manter o cinema vivo frente a popularização da TV na década de 70 no interior do ceará.


“Cine Holliúdy” é construído para ser uma grande e divertida sátira ao universo cinematográfico e cumpre seu objetivo com louvor emanando graça e magia.

O Diretor Halder Gomes aposta na simplicidade e na imaginação ao dirigir este grande e divertido tributo a sétima arte. Com uma direção de atores delicada e uma grande habilidade em compor e trabalhar os planos dotado de uma grande agilidade( não só no que diz respeito a direção mas também ao domínio da narrativa) Gomes surpreende o espectador a todo o momento pelo elemento surpresa que acomete o longa. Acontece que o diretor, tendo já brilhantemente conquistado o espectador já nos primeiros minutos de filme dado a riqueza da história, a delicada construção de cenas e o carisma de seus atores se dá o direito de ousar. Ousar em vários aspectos: No corte rente dos planos, na sobreposição de cenas e na inclusão de efeitos provenientes do desenho animado causando uma quebra na estrutura dramática e no fluxo narrativo da história.


Para administrar todas estas “quebras de fluxo” e dar sustento narrativo á história, o longa possui uma montagem paralela poderosa que mantêm o espectador inerte aquele determinado plot narrativo para depois voltar a elas. Voltando a questão da agilidade na composição fílmica , o diretor adota uma agilidade muito perspicaz nas cenas apostando em uma miscelânea de linguagens e signos audiovisuais incorporado a trucagens fílmicas e a um humor característico do ceará.

     Halder Gomes brinca com os gêneros e signos do cinema a todo o momento em “Cine Holiúdy”. Essencialmente uma comédia metalinguística e um tributo a sétima arte o longa se converte ao explorar outros gêneros incorporando-os a sua narrativa. De comédia satírica a um Road Movie passando pelo cinema de ação, o longa desafia o espectador a decodificar os signos do cinema a todo o momento se tornando uma interessante brincadeira entre o filme e os personagens- bem como ao espectador.


A fotografia do longa a cargo de Carla Sanginitto explora as belezas naturais da paisagem bem como um Road Movie exige. Utilizando um granulado na maioria do tempo que realça a beleza das imagens convertendo-as em um elemento narrativo poderoso para a construção fílmica do longa. Essa conversão fica explicita em uma cena em especial no qual Graciosa(Miriam Freeland) a esposa de  Francisgleydisson(Edmilson Filho) tem sonhos. Considerado um “Ponto de Virada” do filme estes sonhos envoltos em uma atmosfera onírica possuem um tom azulado especial para demarcar a sua importância para o andamento do filme.


O roteiro escrito por Helder Gomes tem um humor muito característico. Os diálogos e referencias possuem uma forte veia cômica acentuada. A linguagem adotada no longa(que apresenta legendas por contêm expressões características do povo cearense) é fortemente “carregado nas tintas” da comédia se tornando uma experiência engraçada, emocionante e (muito) divertida.

  
O elenco inteiro esteve exímio em suas interpretações e confortável em seus devidos papéis mas é necessário destacar quatro nomes: A começar por Edmilson Filho, a graça e o talento que o ator dispõe para a comédia que surge aqui de maneira natural aliado a sua habilidade criativa de fonética e imitação. Além disso, Edmilson a forma com que o ator humaniza Francisgleydisson nos faz embarcar no sonho do personagem de maneira impar e acompanhar sua saga vidrados no enredo do longa.


Miriam Freeland faz de Graciosa a esposa de Francisgleydisson o esteio do filme. Miriam interpreta uma mulher forte e batalhadora e ao mesmo tempo dotada de um humor muito sutil. A atriz soube trabalhar todas as nuances de sua personagem com maestria resultando em uma atuação emocionante.

Joel Gomes que interpreta Francisgleydisson Filho o filho dos personagens de Edmilson Filho e Miriam Freeland impressiona pela graciosidade e pela rapidez de sua veia cômica. Articulado e de raciocínio ágil o ator faz uma boa dupla com Edmilson além de estabelecer uma relação cênica com ele e Miriam Freeland baseada na afetividade.


Roberto Bomtempo é um show á parte do filme. Interprete do prefeito Olegário Bomtempo atua de maneira demasiada cômica e de forma deliciosamente caricatural o que cai muito bem ao personagem resultando em uma performance divertida e altamente engraçada que com o imenso talento e carisma que o ator empresta ao personagem conquista o público logo de cara.




“Cine Holiúdy” é um ótimo filme. Leve e despretensioso é uma grande homenagem a arte cinematográfica e os seus gêneros. O filme nos conquista pela sua simplicidade e emoção e nos faz querer mais. Além disso, “Cine Holiúdy” é a prova de que pode(e deve) haver uma abertura no Cinema Brasileiro para explorar outras praças além do habitual Rio- São Paulo e uma amostra do mais competente Cinema Autoral.




sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Os Idiotas



Anárquico talvez seja a melhor definição para “Os Idiotas” de Lars Von Trier longa feito seguindo os preceitos do Dogma 95.

Um grupo formando uma sociedade a margem da sociedade com o intuito de chocar,escandalizar aqueles que vivem em um nível acima. Assim essas pessoas libertam “o seu idiota interior”. Se pensarmos bem o filme é em suma uma grande e perturbadora  crítica a os padrões estabelecidos pela sociedade. Perturbador pelo fato da mise -en- scene(os protagonistas fingem ter doença mental) fato reforçado pela câmera na mão de Von Trier que reforça o aspecto perturbador e de deslocamento social em que vivem os protagonistas.


O diretor não tem medo de chocar e usa o poder das imagens para reforçar essa premissa. Escatológico, sexual, libertino são muitas as definições que podem se aplicar ao filme mas no meio de toda essa anarquia encontramos um subtexto de um estado elevado de consciência que cerca os protagonistas.

Mas o apuro técnico subverte (ao mesmo tempo que reforça) todo o teor anárquico do longa. A câmera na mão confere um ar tremido a ação dramática e coloca o espectador dentro da ação em uma clara posição de desconforto. A luz natural confere um aspecto mais purista as imagens.

  O diretor flerta com outras estéticas fílmicas em “Os Idiotas” como o documentário adotando um tom confessional em certos momentos da narrativa. Von Trier rompe com os signos e estruturas do cinema a todo o momento durante o filme assim como com o próprio entendimento do espectador sobre o que está sendo visto.


Ao romper com o curso narrativo em movimento de maneira abrupta o diretor o fragmenta e abre espaço para outras interpretações contidas nas entrelinhas sobre a real face dos idiotas por exemplo, o que nos leva a um jogo interessante de descodificar a mise –en –scene e a atuação performática dos atores. “O personagem dentro do personagem”. É um questionamento complexo e talvez não atinja o espectador de massa mas faz todo o sentido.


É inevitável relacionar o grupo social dos idiotas com a “Sociedade dos Poetas Mortos” do filme homônimo. Sim, eu tenho quase certeza que Lars Von Trier bebeu nessa fonte pelas semelhanças em gênese que os dois filmes apresentam.



“Os Idiotas” é um filme perturbador sobre as diferenças que faz uma crítica (ainda que satírica) aos padrões de aceitação impostos pela sociedade.   



sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Agenor- Canções de Cazuza


O cantor Cazuza deixou uma gigantesca obra musical. Não só aquelas gravadas por ele em carreira solo ou na época em que era vocalista do Barão Vermelho, composições suas que foram sucessos na voz de outros artistas. O fato é que o cantor deixou um imenso repertório de “B-Sides” canções pouco conhecidas mas de imenso valor artístico e afetivo.


Resgatar esse “lado B” do cantor tendo sua obra visitada(ou revisitada) pela nova geração essa é ideia do projeto “Agenor- Canções de Cazuza que visa revisitar a obra do cantor pela nova geração da cena independente. Esse documentário de Tatiana Issa e Guto Bessa é o registro dessa empreitada.

Concebido para registrar a experimentação que resultou nesse projeto que rendeu show e cd “Agenor- Canções de Cazuza” foge dos padrões de um documentário exibido exclusivamente na TV e também pela sua estrutura ousada fugindo dos padrões daquele esquema “entrevista- música- flashbacks”. Pelo contrário, os documentaristas não tem medo de registrar o ensaio, a experimentação daquelas canções pelos artistas, o treino, o encontro do timbre, a repetição até encontrar a perfeição. Essa repetição não cansa o espectador por dois motivos: Primeiro pela beleza da musicalidade das canções e pela grandeza artística de cada artista tentar encontrar a sua “voz” dentro da música de Cazuza mas principalmente pela montagem paralela que intercala esses artistas permitindo um mosaico mais abrangente e múltiplo da obra do cantor.


O filme tem um aspecto de resgate não só da memória cultural e artística do país através de uma figura de extrema importância mas também de resgate afetivo daqueles jovens procurando reconhecer suas lembranças da figura do cantor e o primeiro contato com a sua obra. O Filme tem esse viés de resgate , de tributo , de uma homenagem mas por outro lado também tem outras vertentes como apresentar outras facetas desconhecidas da obra de cazuza mas também um projeto ousado de expressão artística genuína e performática assim como redescobre canções do cantor com novas versões tais como “Gatinha de Rua,”Mais Feliz” e “Amor, Amor” por exemplo. Também é um projeto de multi plataforma engrandecedor que rendeu show e cd além do documentário.

A presença de Cazuza ecoa durante todo o documentário. Ele não está ali de corpo presente mas, a força de suas músicas é o que da vigor ao documentário e enaltece a grandeza do projeto encabeçado pela Jornalista Lorena Calabria e do DJ Zé Pedro.



Considero “Agenor- Canções de Cazuza” um excelente documentário por ser ousado e experimental mas, principalmente por prestar ao mesmo tempo um tributo ao um grande artista que merece todas as homenagens como apresentar outras facetas de sua obra.       



segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Ronnie Von- Quando Éramos Príncipes


Ronnie Von é um artista que sempre andou na contramão. Essa é a mensagem que o Documentário “Ronnie Von- Quando Éramos Príncipes”  passa ao espectador. Um artista transgressor, ousado e principalmente vanguardista porém muito incompreendido.


O filme dirigido por Caco Souza remonta a carreira de Ronnie com uma atenção especial a sua fase psicodélica representada por uma trilogia de álbuns que tem ganhado o status de Cult com passar dos anos. Pautado em uma dinâmica interessante de entrevistas, fotos e vídeos de arquivo e performances musicais de Ronnie acompanhado pela banda “Os "Haxixins”. O filme possui uma dinâmica e estética muito particular e ai que mora a sua beleza.

Intercalando entre essas três vertentes (depoimentos, arquivo e performances musicais) o documentário reconstrói a carreira artística de seu biografado. Dessa maneira reforça a ousadia do cantor, seu pioneirismo em frente ao popular meloso da época da Jovem Guarda ao mesmo tempo desfazendo estigmas como a alcunha pela qual se tornou famoso “O Príncipe”. Essa ousadia é ressaltada pelo diretor de uma maneira muito sutil e recheado de muita música é claro.

O aspecto musical de grande relevância no documentário tem um viés de resgate. Resgate de uma carreira , de uma época de um artista que cavava um espaço a duras penas mas que vencia mesmo sendo alvo de preconceito pela sua origem burguesa , pela proposta musical que não se encaixava(era influenciado pelos Beatles em uma época de modismo exagerado). Ao mesmo tempo em que a música ilustra os depoimentos(aliás ela permeia todo o documentário como pano de fundo, uma ótima sacada) ela também  serve como uma maneira de o cantor resgatar sua carreira através das performances musicais do cantor acompanhado pela banda Os Haxixes.

O diretor Caco Souza soube orquestrar através de um excelente trabalho de montagem todas as fases de Ronnie em uma linha artística não cronológica. Ali é possível constatar através do farto material de arquivo e de depoimentos do próprio Ronnie e de artistas de calibre como Rita Lee e Arnaldo Saccomani a evolução e o sangue novo que o trabalho do cantor sempre tiveram. Fato que o levou a experimentar outros caminhos como a aproximação com o Tropicalismo e a disputa  entre Ronnie e a Jovem Guarda que se punham em lados opostos não só na televisão com programas concorrentes mas de estilo mesmo. O documentário é bem sucedido em demonstrar essa evolução de forma clara e sutil apoiando se principalmente no aspecto musical que ecoa no documentário e com suportes de riquíssimo valor- Os Depoimentos.

O filme não tem uma pegada saudosista de maneira nenhuma. Mas ai você me pergunta: “Ué mas ele não está revisitando a obra?” Sim ele está revisitando mas agora a sua obra possui outro valor e ele está revisitando com outro olhar. No fundo o documentário te convida a embarcar numa viagem psicodélica pela carreira do Príncipe.

“Quando Éramos Príncipes” é um filme honesto e sincero a altura da grandiosidade de Ronnie Von”       





sexta-feira, 29 de novembro de 2013

O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias


Muitos filmes têm tratado da temática da Ditadura Militar, mas o que me chamou atenção especialmente em “O Ano em que meus Pais Saíram de Férias” foi abordar esse tema pelos olhos de uma criança. Mauro(Michel Joelsas) é obrigado a ficar de férias com o avó enquanto os pais estão em exílio por serem militantes de esquerda.


Cao Hamburger dirige este filme semi-autobiografico investindo em algo que não é muito comum em filmes que contêm essa abordagem: A Ternura o que acaba por se tornar o principal diferencial do longa. Cao tem experiência em lidar com esse público(foi diretor do “Castelo Rá-Tim-Bum” entre outros programas destinados a este publico. Isso explica a destreza com que constrói e comanda as relações entre o Menino Mauro(Michel Joelsas) com o seu interior e os outros personagens.

Estruturando a tensão dramática de forma sutil Cao investe na direção de atores de maneira afável. A tensão dramática aqui representada pelos acontecimentos que são alheios ao protagonista Mauro(Michel Joelsas) permite que Hamburger coloque o personagem em uma situação de deslocamento. Cao capta de forma hábil as reações e os sentimentos internos do personagem principal, apostando em closes e na captura de feições puramente genuínas próprias a uma criança.

Hamburger tem preocupação em captar o universo interno do protagonista abrindo espaço para o lúdico próprio do imaginário infantil. A forma particular com que trata os anseios daquele menino envolto em uma bolha de reclusão(elemento esse ressaltado de maneira sutil pela tensão dramática) é brilhante pois a interação entre Mauro(Michel Joelsas) e os outros personagens é feita de forma gradativa abrindo espaço para a reclusão e o inevitável choque de culturas oriundo da sua relação com o judeu ortodoxo Shlomo(Germano Haiut).

Cao tem extrema habilidade de explorar cada plano ao Maximo que pode. Toda e qualquer incursão feito dentro do universo fílmico tem razão de estar ali. O roteiro é bem sucinto nesse sentido e favorece o trabalho do diretor no momento de orquestrar a narrativa. Da mesma forma, todos os personagens tem razão de estar ali tendo suas funções dramáticas bem definidas e tendo seus adendos á narrativa construídas e desabrochadas no momento certo pelo diretor. Um truque de Mestre.


Hanna(Daniela Piepszyk) a outra protagonista estimula o lúdico do personagem principal sendo a responsável por “furar” a bolha de exclusão em que o personagem se acomoda.


Apesar de “O Ano” ser um filme que aborda a Ditadura Militar, aqui ela está inserida em segundo plano e de forma sutil. O foco mesmo é a infância do protagonista Mauro(Michel Joelsas) o que da margem a uma abordagem diferenciada tratando inclusive de aspectos culturais do Brasil naquela época. A Ditadura aqui está escondida nas entrelinhas e refletida na iminência da angustiante espera do Menino por seus pais.


Michel e Daniela interpretam os protagonistas Mauro e Hanna de forma genuína com graça,talento e principalmente naturalidade.

Germano Haiut reflete em sua atuação justamente o que seu personagem Shlomo representa para o filme: Um personagem de opostos que se deixa encantar por aquele menino de maneira gradativa e sincera.




“O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias” é um filme terno sobre um tema pesado. Se é que é possível que isto aconteça em um filme. Mas o fato é que Cao Hamburger conseguiu construir um filme com um olhar diferente sobre um tema já tratado anteriormente (embora não tantas vezes quanto deveria). É esse o diferencial de “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias” um outro olhar mais terno sobre um tema pesado, propondo reflexão. 

  

  




terça-feira, 26 de novembro de 2013

Edifício Master



    Os documentários de Eduardo Coutinho se originam de experiências fílmicas propostas pelo diretor e do registro delas. Em “Edifício Master” Coutinho se propõe a registrar o cotidiano de um famoso edifício em Copacabana e as memórias de seus moradores.


Apostando na força de seus “atores sociais” Coutinho estabelece uma dinâmica de maneira que seu documentário toma forma através dos depoimentos dos moradores. É através dos depoimentos que o espectador toma conhecimento da importância histórica ,social e cultural daquele prédio bem como as histórias folclóricas que a cercam reforçando seu misticismo.

Há uma curiosidade do documentarista pelas trajetórias de vida daqueles personagens, construindo um histórico de vida sobre como foram morar naquele lugar repleto de lendas. Deixando seu entrevistado em posição confortável Eduardo Coutinho estabelece um ambiente de liberdade proporcionando que os depoimentos sejam extremamente sinceros e cru em alguns momentos. O papel social de Coutinho dentro do documentário (além é claro de ele ser o diretor) é a de um buscador e contador de histórias. É impressionante a maneira com que ele busca e instiga o entrevistado a revistar o passado e compartilhar suas histórias com naturalidade e de maneira sutil. Isso contribui para o despudor que os personagens tem de revelar passagens tristes da sua vida.

Os personagens estabelecem uma relação de cumplicidade com a câmera(resultado do terreno confortável a que Coutinho expõe seus entrevistados). Essa relação cúmplice permite ao espectador conhecer mais sobre aquelas pessoas aquele lugar e a transformação destes.

A forma instigante que o documentário tem exerce uma curiosidade absurda no espectador. Seja pela forma da direção de Coutinho que é muito limpa(ao contrário de “Um Lugar ao Sol” de Gabriel Mascaro que bebe em fonte semelhante mas com proposta extremamente diferente). O filme por si só instiga a acompanhar aquelas pessoas e suas histórias de maneira parecida a proposta dos Realitys Shows. “Edifício Master” pode ser encarado dessa forma pelo formato que possui de acompanhar e retratar vidas alheias ou pelo retratado da degradação daquele conjugado de apartamentos e seus moradores ou até mesmo pelo passado “marginal” do lugar. Mas “Edifício Master” é muito mais que um Reality Show, histórias de seus moradores e etc. É um estudo sociológico da evolução não só daquele lugar mas da cidade do Rio de Janeiro como um todo. 

“Edifício Master” tem um aspecto particularmente interessante que é a revelação do aparato cinematográfico. Coutinho juntamente com sua equipe nos revela toda a sua preparação incluindo os instrumentos necessários para realização do filme. Aqui o “por trás das câmeras” é revelado se tornando um elemento extremamente rico que engrandece o documentário.

O documentário atinge diversos campos de compreensão. Ao mesmo tempo que é um filme sobre o retrato de si mesmo e suas histórias, possui um aspecto de resgate histórico. É também, um filme sobre o outro. Sobre a visão que aquele morador tem de seu vizinho e do passado daquele local.


“Edifício Master” é uma experiência múltipla. Um filme que propõe um resgate não só social e histórico mas de si mesmo, do seu interior. É a possibilidade de recordar suas memórias. Concluindo, “Edifício Master”   não é só um documentário é uma experiência de revelação do aparato cinematográfico.


    

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Eu Não Quero Voltar Sozinho


A adolescência é uma fase de descobertas e se você por ventura têm algum tipo de limitação essa fase se torna ainda mais complicada mas, ao mesmo tempo esse “terreno novo”proporciona um imenso paraíso de possibilidades.


As diferenças e as descobertas nessa fase da vida é o tema principal de “Eu Não Quero Voltar Sozinho” Curta Metragem de Daniel Ribeiro.

“Eu Não Quero Voltar” conta a história de Leonardo vulgo Léo(Guilherme Lobo) um adolescente cego que encara as dificuldades da vida com muita perseverança e otimismo. Léo têm em Giovanna(Tess Amorim) sua melhor e única amiga. Tudo muda com a chegada de Gabriel(Fábio Audi) um aluno novo que muda sua forma de ver o mundo.


O diretor Daniel Ribeiro possui um talento especial de abordar temáticas polêmicas com sensibilidade e destreza como no seu Curta anterior “Café Com Leite” sensibilidade essa que atinge níveis emocionantes e inspiradores.

Desenvolvendo a dinâmica entre os três protagonistas de forma gradual e suave Ribeiro centraliza sua história através do ponto de vista de Léo(Guilherme Lobo) e sua relação com os outros personagens. A dinâmica estabelecida entre eles –Léo , Gabriel e Giovanna constrói uma relação fraternal de amizade verdadeira entre os protagonistas ao mesmo tempo em que são personagens absolutamente humanos e criveis possuindo sentimentos como o ciúme e o amor por exemplo.

Construindo uma narrativa pura e simples Ribeiro aborda temas importantes nas entrelinhas como a descoberta da sexualidade , o ser diferente e a superação.
A abordagem da deficiência visual de Léo(Guilherme Lobo) é feita de forma absolutamente verdadeira,natural e com otimismo. Por exemplo, quando Gabriel(Fábio Audi) pergunta a Léo se ele sempre foi assim se referindo a sua deficiência visual e ele responde : “Assim como? Moreno ou cego?”. Esta frase sintetiza de certa forma a noção de igualdade social e do respeito as diferenças que o longa aborda. Importante salientar a forma brilhante que esses temas são abordados tanto a descoberta da homossexualidade quanto a deficiência de Léo(Guilherme Lobo). Esses temas surgem ou melhor brotam no Curta de maneira natural gradativamente – um excelente trabalho de construção de narrativa feito pelo diretor e roteirista Daniel Ribeiro.

Quanto a abordagem da deficiência visual de Léo(Guilherme Lobo) ela é feita de uma maneira muito crível,sem maniqueísmos e nenhuma abordagem panfletista pelo contrário a mensagem é passada através das entrelinhas de uma forma muito sensível e a trajetória de superação do personagem frente a suas limitações e descobertas é feita de forma natural e poética.

Pautando o filme em uma narrativa sensorial o filme abre espaço para inúmeras interpretações e simbolismos frente á delicadeza e naturalidade que os temas brotam na tela. No fim, é como se o diretor estivesse “convidando” o espectador a se auto descobrir junto com os personagens.

A trilha sonora reforça o aspecto emocional de descobertas por quais passa o personagem Léo(Guilherme Lobo) pela sua sexualidade e pelos novos sentimentos que surgem. Dando o tom das cenas, reforçando o aspecto poético ,lírico , romântico e fraternal que envolta a trama. As Canções “Beijo Roubado em Segredo” de Tatá Aeroplano e Juliano Polimeno e “Janta” de Marcelo Camelo e Malu Magalhães tem funções narrativas importantes na história servindo como pano de fundo para a trama e com funções narrativas exercidas em momentos do filme. Enquanto “Beijo Roubado em Segredo” sintetiza o filme sendo sua musica tema, “Janta” funciona como pano de fundo para um ponto de virada primordial no filme.

O trio de atores principais Guilherme Lobo(Léo),Fábio Audi(Gabriel) e Tess Amorim(Giovana) esbanja sintonia e entrosamento cênico  (ótima direção de atores de Daniel Ribeiro). O trio aposta muito em uma atuação refletida nos olhares e gestos do que propriamente na força do diálogo. A beleza aqui está no sub texto.


Me faltam palavras para descrever “Eu Não Quero Voltar Sozinho” mas eu vou tentar. É um Curta Metragem singelo, com uma história bonita repleta de simbolismos e significados. Não estou falando na beleza visual apesar de que neste quesito o filme não deixa nada a desejar mas da beleza da mensagem , da vida. Resumindo: É um filme que emociona , te faz refletir, te cativa e te deixa em êxtase puríssimo com sua forma bela e delicada de abordagem. E não para por ai, o curta será transformado em um longa intitulado “Hoje eu Quero Voltar Sozinho”. Aguardaremos com ansiedade.

  
   
 Assista o Curta no Vídeo Abaixo:




         




domingo, 17 de novembro de 2013

Jogos Vorazes: Em Chamas



Katniss(Jennifer Lawrence) e Peeta(Josh Hutcherson) se sagraram vencedores da edição anterior dos “Jogos Vorazes” em um feito inédito. Tal feito lhes garantiu tamanha popularidade pois irão embarcar na “turnê da vitória” mas desagradou as autoridades em especial o Presidente Snow(Donald Sutherland) que anuncia que os vencedores das edições anteriores dos “Jogos Vorazes” voltarão ao campo de batalha dessa vez no “Massacre Quartenário” uma edição especial dos jogos.

Um aspecto interessante em “Jogos Vorazes” é o fato de conseguir dosar entretenimento e reflexão crítica na tela grande(ainda não li os livros que originaram a série). Esses dois elementos tão carentes ao público jovem estão presentes de forma mais coesa nessa continuação “Em Chamas”.

O diretor Francis Lawrence (que substuiu o Gary Ross o diretor do filme anterior) concentrou seu trabalho em duas linhas paralelas que se complementam na tela grande. Por um lado Lawrence estruturou o universo fantástico em que a trama está inserida adotando uma narrativa ágil com sucessões rápidas de planos, elipses e corte seco.Lawrence ainda investiu em um trabalho de direção mais corporal digamos assim, apostando na dinâmica entre o elenco o que permitiu que utilizasse closes e planos próximos de maneira que os atores atuassem com naturalidade. O diretor induziu uma dinâmica que imprimiu agilidade nas cenas de ação mantendo a tensão dramática eminente. Lawrence realçou os três universos opostos que coexistem no filme: A pobreza e a luta pela sobrevivência representada por Panem, os jogos e a realeza representada pela capital e o universo televisionada do reality show com todo o glamour e a mise-en-scene proveniente da ocasião.

O diretor realizou uma direção com base no impacto tanto de ação dramática quanto visual e sonoro,além de corrigir as falhas do primeiro filme tornando mais coeso e palpável ao público. Só acho que ele poderia ter aproveitado melhor os planos , trabalhado-os mais. Nesse aspecto a agilidade da montagem pecou um pouco mas nada que prejudicasse a estrutura do filme.

Quanto a fotografia e o aspecto visual do longa podemos afirmar que ela funciona através de contrastes- aliás como todo o enredo. Na capital se usa cores vivas e vibrantes e abundancia remetendo aquele cenário ao um aspecto caricato. Já em Panem e durante os jogos utilizam-se cores frias como o azul e verde além de uma iluminação mais dura.

O som tem papel importantíssimo em “Em Chamas”. É ele que endossa a tensão dramática,reforçando a tensão iminente e anuncia a chegada do clímax da ação. O Som é impactante agregando tanto as cenas de ação quanto aquelas de suspense aumentando a sensação de tensão dramática no espectador. O som aqui inaudível reproduz o impacto narrativo de tamanha grandeza tal como o do filme.

O Roteiro escrito a 6 mãos pela autora dos livros Suzanne Collins , Simon Beaufoy e Michael Arndt é muito mais palpável ao espectador sem entretanto soar telegrafado.  O Grupo constrói o universo narrativo de forma exata transpondo o telespectador para dentro daquele universo.
 Um fator interessante no que diz respeito a construção dos personagens de “Em Chamas” é que são personagens ambíguos. Todos tem “dois lados” e transitam nessa linha tênue com destreza. Sobretudo, são personagens mais humanos com qualidades e defeitos.  Enquanto Katniss(Jennifer Lawrence) e Peeta(Josh Hutcherson) aprendem a controlar suas emoções e se tornarem seres selvagens realçando a emoção em momentos de segurança. Personagens antes controlados pela frieza emocional como Elfie(Elizabeth Banks) e Haymitch(Woody Harrelson) demonstram suas emoções. Haymitch, um personagem totalmente ambivalente tem suas emoções afloradas pouco a pouco enquanto Elfie(Elizabeth Banks) é uma personagem deliciosamente caricatural.

O elenco encabeçado por Jennifer Lawrence(Katniss) e Josh Hutcherson(Peeta) estão todos encaixados em seus devidos papeis e confortáveis em suas funções narrativas atuando com naturalidade.

Admito que demorei a aceitar Lawrence como a heroína Katniss mas bastou algumas cenas para a atriz se revelar a escolha certa pra esse papel pois foge do esteriotipo de heroína clássica. Katniss é uma personagem fora do padrão e Lawrence personifica a personagem de forma perfeita.
 Josh Hutcherson traz um Peeta mais humano nessa sequência. Mais aberto aos sentimentos não tanto racional como no primeiro filme. Lenny Kravitz ressurge irreconhecível como Cinna, o estilista de Katniss e Peeta. Tão irreconhecível que só fui sacar que era ele o ator ao ler a ficha técnica. Lenny compõe um personagem alegórico, fiel e com humor refinado carregando nas “tintas dramáticas” sem torná-lo over. O mesmo não pode-se de dizer de Elizabeth Banks. A atriz faz de Elfie uma personagem over sim mas de forma positiva. Elfie é deliciosamente carictural, over e estridente. Banks carregou na interpretaçao com gosto o que torna mais adorável a forma estridente que a personagem expõe suas emoções.


  Woody Harrelson também traz um Haymitch diferente nesse segundo filme.  Ainda ambivalente de natureza, o personagem está mais seguro e um pouco mais estável capaz de orientar Katniss e Peeta. Harrelson dosa os “ups” e “downs”do personagem garantindo um merecido destaque no longa.  A  grande surpresa no elenco atende pelo nome de Philip Seymour Hoffman. O ator interpreta  Plutarch Heavensbee um ex vencedor dos jogos ressaltando a ambiguidade do personagem envolto em uma áurea de mistério e falsidade aparente. Philip Seymour Hoffman entrega uma interpretação magistral do personagem se destacando pela magnitude que empresta ao personagem.


“Jogos Vorazes: Em Chamas” é realmente um filme de imensa magnitude e grandeza que ganha força por contrabalançar um entretenimento de qualidade contando com um universo estético e narrativo verossímil com reflexão crítica propondo aos jovens público-alvo do filme refletir e questionar. Ainda com o seu final de extremo impacto que deixou com vontade de mais.


  

   

    

  

   

    

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Amarelo Manga



Ligia(Leona Cavalli), Kika(Dira Paes),  Wellinton(Chico Diaz), Dunga(Matheus Nachtergaele) e Issac(Jonas Bloch) tem suas vidas cruzadas tendo como pano de fundo um pequeno hotel no Recife.


Conheço muito pouco do trabalho do Cineasta Cláudio Assis conhecido pelos personagens marginais e pela estética repleta de hiper violência visual elementos presentes nesse ótimo “Amarelo Manga”.

Calçado na força visual para retratar(ou justificar a escória pessoal dos personagens).Assis situa o espectador naquelas situações que envolvem seus personagens marginais através de planos gerais oferecendo assim ao espectador uma visão privilegiada “Vista de Cima” da ação. Além de situar o espectador na vida daqueles personagens abjetos o diretor situa-nos naquele ambiente execrável certo de que o ambiente em que vivem tem sua “Parcela de Culpa” na personalidade daqueles personagens. Pra evidenciar o ambiente como um espelho dos personagens o diretor investe em planos descritivos e na interação ator-texto(os personagens de Chico Diaz e Dira Paes são bons exemplos disso).  Os planos descritivos representados principalmente pelos Travellings executados com perfeição que captam a sujeira visual daquelas  ruelas- aspecto ressaltado por uma fotografia igualmente suja.

Aliás , a natureza crua da fotografia realça os planos descritivos que servem como apresentação dos personagens em cenas comandadas com destreza pelo diretor Cláudio Assis que impressionam pelo realismo visual e dramático. Um excelente exemplo do elo de ligação entre a fotografia e a direção.

As cenas ganham uma certa poesia pelas mãos do diretor. Mesmo abusando da ultra violência(aqui mais visual do que propriamente física) e da sexualidade exacerbada que estão encaixadas dentro do contexto do filme. Assis converte esses elementos a favor da dramaturgia e do impacto visual de seu Longa.


Dois outros elementos também inteiramente ligados em “Amarelo Manga” são o Roteiro e a Montagem. O roteiro de Hilton Lacerda possuiu um aspecto semelhante a um recorte de modo que apresenta aqueles personagens tão dispares de modo a introduzir seus plots e deixa-lós em “Banho Maria” só pra poder emergir os personagens do “limbo dramático” no momento certo. Lacerda ainda construiu personagens marginais de transição,mutação. Estando sempre passiveis a mudar como realmente se transformam. A Montagem de Paulo sacramento sabe organizar esses plots de forma orgânica e compreensível ao espectador assim como “prepara o terreno” para os pontos de virada do filme.


O elenco realmente atua de forma visceral ,estando todos em uma espécie de incorporação de seus respectivos papéis tamanha a naturalidade com que interpretam estes tipos ambíguos. Todo o elenco está perfeito mas três nomes chamaram a minha atenção particularmente: Jonas Bloch como o necrófilo Issac pelo modo impar que conduz a patologia de seu personagem. Chico Diaz como o açougueiro Wellinton pela frieza e deste modo a profissão do personagem é um reflexo de sua personalidade que me remeteu muito ao açogueiro dos filmes “Carne” e “Sozinho contra Todos” do cineasta argentino Gaspar Noé.



“Amarelo Manga” é um filme extremamente repulsivo e ao mesmo tempo hipnotizador sendo que o espectador é intimado a assistir aquele universo execrável até o fim e assim acabando por gerar compaixão no espectador por aqueles personagens. Com este filme maldito me rendo á Cláudio Assis. 



segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Enter the Void


Oscar(Nathaniel Brown) vive em Tóquio com sua irmã Linda(Paz de La Huerta). Oscar é um traficante de pequeno porte e Linda é Stripper no clube local, mas um acontecimento põe suas vidas em perspectiva.


Quando eu achava que o cineasta Gaspar Noé não poderia mais me surpreender assisto esse “Enter the Void” que não é simplesmente um filme mas sim uma experiência lisérgica e onírica.


Elevando seu estilo a outro nível fílmico “Enter The Void” é uma obra com inúmeras possibilidades de interpretação. Metalinguística e com forte apelo visual que aqui atingem o seu ápice da carreira de Gaspar Noé.

A metalinguagem aqui exposta na forma do personagem em seu auto-filmar com uma câmera na mão proporciona uma imagem tremida , orgânica a ação onírica e surrealista que o filme proporciona aos seus espectadores uma viagem atmosférica de sonho e lisérgica.  As sobreposições de cenas favorecem a percepção de outro estado de consciência seja pelo uso de drogas ou pelo emocional dos personagens. O fato da câmera de Noé estar sempre em movimento e desbravando os ambientes adentrando-os e também pelo uso de planos gerais que proporcionam uma visão panorâmica da ação vista de cima. Essa tal “visão panorâmica” permite que o diretor adentre outras realidades e espaços fílmicos que se fundem a ação dramática funcionando como objeto de transição de planos muito semelhante ao recurso utilizado no longa “Estrada Perdida” de David Lynch.

Gaspar Noé adentra outros universos fílmicos através de closes promovendo a fusão entre esses dois universos para a criação de um terceiro.  Assim, ele convida o telespectador embarcar nessa viagem com múltiplos significados tendo como pano de fundo a sexualidade tema próprio do seu estilo.  Através de um trabalho minicioso de montagem e roteiro Gaspar Noé converte seu filme em uma sucessão de aparentes flashbacks que se fundem com o tempo corrente do filme. aparente porque se tratando de um filme como esse o espectador perde a noção do que é real e do que é irreal e ai está a grande graça do filme é o espectador construir uma linha de raciocínio através daquelas imagens para o diretor desconstruí-las e fazer seu pensamento virar pó.




Noé investe mais fortemente no poder visual do filme do que nos diálogos . as cenas tem por si só uma grande carga dramática embutida. Noé sabe a força que as cenas tem por isso investe no universo onírico do sonho de uma realidade paralela durante grande parte do filme. O elemento onírico do filme está estritamente ligado ao visual ou seja, a iluminação que aposta em cores quentes e vivas além de expor um fotograma intenso e “a meia luz” como uma lâmpada prestes a se romper. As imagens e o aspecto visual ocupam grande espaço fílmico pois o diretor Gaspar Noé acredita que nem tudo precisa ser explicado e nem tudo tem uma explicação aparente. As imagens colocam o espectador em estado de inércia, vidrado no poder da imagem e deixa o espectador sem a capacidade de esboçar reação. Quaisquer que seja ela.



Gaspar Noé extrapola todos os seus limites, subverte símbolos e formulas além dos próprios elementos do cinema. Tudo isso para deixar o seguinte recado: ” Nem tudo na vida tem a necessidade de ser explicado,as vezes as coisas ultrapassam a explicação. Não importa o que você ouve mas o que você sente. 








quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Irreversível



Minhas experiências com a filmografia do cineasta Gaspar Noé tem sido no mínimo impactantes. Após o chocante media-metragem “Carne” e sua continuação igualmente perturbadora  “Sozinho Contra Todos” sou brindado com outra experiência transformadora com este “Irreversível”.

“Irreversível” é a saga de busca por vingança dos amigos Marcus (Vincent Cassel) e Pierre(Albert Dupontel) pelo estupro de Alex(Monica Bellucci) Namorada de Marcus e ex de Pierre.


Com hiper- violência e realismo visual gritante o filme impressiona primeiramente pelo modo que Gaspar Noé conduz os movimentos de câmera em sentido rotatório. Sua Câmera nunca está estática mas sempre em movimentos em sentido rotário causando impressões de frenesi ao espectador. A câmera é capaz de se mover de modo extremamente ágil evidenciando diferentes pontos da ação dramática Ora a câmera te da a perspectiva de cima com excelentes planos gerais comandados com destreza por Noé, em outros momentos a câmera gira em sentido horário e anti-horário.

Outro aspecto interessante do longa é fato dele ser quase que inteiramente em plano sequencia revela a maneira ousada que o diretor utiliza para realizar as transições entre os planos é genial. Noé adentra em sentido rotatório com sua câmera e sem pedir licença o outro espaço fílmico.

O impacto visual das imagens é extremamente forte. Seja pelas cenas de extrema violência estilística  e escatologia seja pelas cores quentes que a realçam reforçando seu impacto e o magnetismo que causa no espectador sendo impedido de parar a projeção antes do fim, quaisquer que seja o sentimento e reação que o filme esteja te causando. Seja de repulsa ou excitação(como foi o meu caso).

A Verdade é que Noé não economiza no realismo e no grafismo visual das cenas. Apostando no realismo cru das imagens permeados por cores quentes e vivas e por uma iluminação potente o diretor investe na exposição realística e ultra violenta com o realismo e a sujeira latentes.


O som tem grande importância no impacto visual de maneira que engrandece as cenas reforçando o seu impacto com um som audível e latente. Resultado –creio eu- de um excelente trabalho de pós produção que tornou o som um elemento que serve pra impactar uma ação dramática(como no caso dos closes) ou para servir de pano de fundo como nas cenas de transição e ação dramática por exemplo. Os timbres latentes utilizados aproximam o filme a estética do videoclipe pelos efeitos clipados e a agilidade cênica que as cenas que combinadas o seu aspecto mais tremido com a iluminação de uma fotografia excepcional diga-se de passagem constrói um universo estético representativo e condizente com o estilo de Noé.


O trio protagonista Vincent Cassel(Marcus) , Albert Dupontel(Pierre) e Monica Bellucci(Alex) demonstram empatia , entrosamento e química cênica. Estando todos confortáveis com suas posições dramáticas na narrativa do filme e atuando de forma natural.  Cassel arrebenta mais uma vez ao dar o tom certo de ironia e masculinidade a Marcus é realmente um tipo bem masculino reforçado pelo biótipo e inteprertaçao de Cassel perfeito como primeiro vértice desse “triangulo amoroso” Dupontel por outro lado aposta em uma interpretação mais simplista e comedida sendo responsável pela “voz da razão”, a consciência do filme. Monica Bellucci exala sensualidade pelos poros como Alex. Se por um lado a personagem gosta do jeito mais masculino e decidido de Marcus(Vincent Cassel) por outro precisa do jeito mais carinhoso e afável de Pierre(Albert Dupontel). Um “Dona Flor e Seus Dois Maridos” a lá France. Vale ressaltar a capacidade de interpretação que Bellucci imprimiu na cena do estupro magnânima.


Gaspar Noé apresenta mais um filme que supera o excelente. É hipnotizador, impactante e transformador entre inúmeros outros adjetivos.  Noé continua a destilar seu estilo verborrágico, extremamente violento e pecaminoso sem fazer concessões. Assim é Gaspar Noé. Ama ou odeie é impossível ser indiferente ao seu Cinema.








sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Um Lugar ao Sol




Eu sou um grande fã de Realitys Shows como já mencionei aqui sobretudo aqueles que possuem um caráter confessional semelhante a um estilo soap-opera e a proximidade desses filmes com os documentários. Outro exemplo de documentário nesse estilo é "Um Lugar ao Sol" do cineasta Gabriel Mascaro.


Neste filme Mascaro adentra o cotidiano de moradores de uma luxuosa cobertura no Rio de Janeiro onde propõe um retrato de suas vidas e uma reflexão sobre temas como Status,posição social,luxo,conforto e poder. 


O Diretor Gabriel Mascaro se preocupa em construir uma noção da grandiosidade de seu objeto de estudo no espectador desde o inicio,talvez por isso invista em imagens aleatórias de construções,imagens da rua e planos gerais com a clara intenção de evidenciar que estamos diante de algo magnânimo mas os cortes bruscos, a trilha incidental estridente e chata  e principalmente a montagem torpe que não tem a mínima noção de continuidade acaba por quebrar o eixo narrativo de algo que poderia render muito mais do , que rende.


O que realmente torna "Um Lugar ao Sol" minimamente interessante são os depoimentos dos moradores do condomínio de luxo. através deles podemos ter um reflexo do significado do "Status Social", sua relação com o dinheiro , a ideia de superioridade, a diferença entre luxo e conforto, ambições ,exclusividade e o olhar sobre o outro.


Tendo depoimentos de todos os tipos desde o "novo rico" até aquele com consciência da realidade e do conceito de igualdade social passando por aqueles que revelam uma posição de superioridade inflada presos as suas próprias "bolhas" particulares que a sua situação social lhe permite revelando assim um alto e gravíssimo estado de alienação que chega a níveis tão alarmantes que acaba por assustar o espectador que aquele individuo teve coragem de falar abertamente aquelas insanidades perante a presença de uma câmera. Enquanto outros em contrapartida apesar de cientes da sua posição social privilegiava possuem uma consciência e preocupação com o próximo.
Esta é a "batalha" conceitual de "Um Lugar ao Sol" o filme nada mais é do que um estudo dos estados de consciência e alienação que acomete as classes sociais. Parece que estamos assistindo a um novo episódio de "Mulheres Ricas" ou qualquer programa do gênero mas enquanto o Reality Show tem no humor uma válvula de escape para justificar a extravagância e insanidades cometidas pelos seus "personagens". Aqui, por outro lado não temos humor o que temos é o espetáculo degradante da alienação salvo alguns participantes que se preocuparam em enriquecer também o cérebro e não apenas a conta bancária.


Interessante observar a questão da perda de pudores e exibicionismo versus a intimidade e privacidade. Os participantes tem a clara intenção de desfazer ou reforçar - e quando o fazem é sem vergonha nenhuma os estereótipos que são construídos a sua volta pela hierarquia social a que pertencem. Ou o rico se preocupa em demonstrar sua preocupação com a figura do outro ou reforça sua posição de superioridade.


Gabriel Mascaro imprime(ou tenta imprimir) uma direção pífia ao filme. Investindo nos jogos de câmera que quase destroem momentos cruciais dos depoimentos. Além de quebrar a continuidade com planos gerais desnecessários. Seria melhor se Mascaro fosse apenas um mero ouvinte durante todo o filme e deixasse os reais protagonistas conduzir o documentário.



No fim, "Um Lugar ao Sol" se revela um estudo dos estados de alienação e consciência social. Uma proposta interessante que se aproxima dos Realitys Shows sim mas se perde na própria grandiosidade se revelando um filme vazio.






sábado, 19 de outubro de 2013

Parents



Eu sou um grande fã da Legião Urbana(o nome desse blog é o nome de uma música da banda). A primeira música da banda que eu ouvi foi “Pais e Filhos” e confesso que nunca tinha imaginado que ela daria um filme assim como “FaroesteCaboclo” mas o mineiro Thales Corrêa imaginou e a metafórica canção da banda inspirou o Curta-Metragem “Parents”.

Produzido nos EUA e inteiramente falado em inglês “Parents” utiliza a canção da banda Brasiliense como inspiração para retratar os conflitos familiares e o despertar de uma jovem garota(Coco Joelle Williams) ao mesmo tempo em que precisa lidar com o caos que se tornou a vida conjugal de seus pais(Ludmila Dayer e Heldane Morris).

O diretor Thales Corrêa induz seu filme ao um terreno metafórico e poético tal qual a canção que o baseia. Thales se revela um diretor atento aos mínimos detalhes e extremamente hábil em utilizar as entrelinhas e simbolismos que existem ali para retratar o universo interno de seus personagens especialmente da Garota (Coco Joelle Williams).

O silêncio tem um papel narrativo de grande importância em “Parents”. Ele leva o espectador para o universo interior daqueles personagens ao mesmo tempo que deflagra tanto o despertar daquela menina na difícil tarefa de crescer servindo para dar o tom das suas descobertas quanto retrata o ambiente hostil que a jovem se encontra. O silêncio estabelece e estrutura as relações entre os personagens(ou a falta delas).

O diretor revela uma habilidade em explorar os mínimos detalhes, um exemplo disso é o fato da sua câmera estar quase sempre em movimento a procura de algo, adentrando o cenário sempre com planos descritivos ao mesmo tempo em que utiliza os closes e movimentos de câmera circular para expressar a interação entre os personagens. “Parents” possui cenas recheadas de lirismo e poesia(fato acentuado pela poderosa trilha instrumental) em que a jovem menina se “fecha” em seu mundo particular para escapar dos conflitos que acometem seus pais. Neste e em outros momentos Correa da um tom metafórico e fantástico as cenas como se a jovem estivesse reclusa em sua própria bolha. Bolha esta que é sempre quebrada pelos fatores internos de seu lar.

Thales imprime uma suave agilidade as cenas com a intenção de captar todos os pontos de vista daquele cenário familiar prestes a desabar, para isso utiliza de flashbacks , trucagens e sobreposições de cenas que representam o choque de realidade da protagonista(Coco Joelle Williams) com o seu real conflito familiar.

O fato de o filme ser visto sobre o ponto de vista da menina garante aos espectador um olhar terno e puro sobre a situação que se acomete aquela família.

“Parents” me lembrou muito os longas “Pauline na Praia” do francês Eric Rohmer e “A Deriva” do Brasileiro Heitor Dhalia pela forma com que retrata o despertar da jovem(Coco Joelle Williams).


Agora o que mais me chamou atenção em “Parents” foi a sua bela fotografia. Utilizando um granulado forte e poderoso a fotografia de Tobias Delm ressalta a poesia e o lirismo que permeiam o filme.

Os atores expressam sintonia em cena estando confortáveis e ótimos em seus respectivos papeis. Coco Joelle Williams atua de maneira singela e doce exprimindo graça e ternura em cena. Sua sintonia com Heldene Morris que interpreta seu pai é deliciosa de se assistir.  Heldene, é outra grata surpresa do Curta. Um ator com uma atuação primorosa ao mesmo tempo sensível e delicada.

É ótimo constatar o quão Ludmila Dayer cresceu como atriz. Eu não acompanhava seus trabalhos havia alguns anos e é maravilhsoso ver a sua evolução que acaba resultando em uma atuação segura e controlada bem como a personagem exige. A atriz se empenha em construir a falta de afeto na relação entre ela e Coco Joelle interprete de sua filha. Uma cena em especial me deixou abismado com a capacidade de atuação de Ludmila (que eu não vou contar obviamente mas quando vocês assistirem vão sacar qual é essa cena).


Por fim, concluo que “Parents” é um filme sensível e encantador. Não só por que levou a música da minha banda favorita ao um significado imaginável mas porque a sensibilidade e poesia que Thales Corrêa imprime em seu curta me emocionou.